Mães tucujus relatam experiências incríveis com a adoção

Por: Joice Batista




Com o objetivo de celebrar o Dia Nacional da Adoção e enaltecer esse ato de extremo afeto, o Bem Tucuju decidiu contar histórias de famílias formadas pela adoção. Em uma pequena sala no centro de Macapá, reunimos três mulheres que nos contaram sobre o prazer de se tornarem mães do coração, como elas preferem se referir ao ato da adoção.

Esbanjando largos sorrisos e um brilho inigualável nos olhos, Antônia da Silva Gama, Ana Carolina Gonçalves de Oliveira Cruz e Shahla Lotfi de Cerqueira, afirmam que a adotar é maravilhoso. Segundo elas, ao contrário do que muita gente pensa, esse tipo de maternidade não se trata de um ato de caridade, mas de um puro e verdadeiro amor familiar.

Juntas, as três mães contam que a chegada das crianças nas famílias não se difere muito do nascimento dos filhos naturais, assim como o amor, que não muda entre as situações.

“Acho que em outras vidas fomos mãe e filho”


Antônia Gama, de 43 anos, é filha adotiva e diretora da Casa Lar Ciã Katuá, onde crianças de até 12 anos de idade em situação de risco social, são acolhidas. Durante o seu trabalho de acompanhar diariamente a entrada e saída desses menores, uma criança lhe chamou a atenção por algo que ela ainda não consegue explicar.

Um menino que na época tinha 2 anos, passava várias vezes ao dia pela sua sala e a olhava através do vidro. Um dia, quando conversou com o garoto, foi chamada de “mãe” pela primeira vez na vida. Até então, Antônia nunca tinha se visto como mãe e durante todo aquele dia, aquele momento ficou entre seus pensamentos.

“Ninguém nunca tinha me chamado de mãe. Eu levei um susto. Os servidores que estavam lá até riram e falaram ‘ele já escolheu a mãe dele’. Eu fui ‘pra’ casa pensando naquela criança”, conta.

Ao conversar com seu marido, Flaviano Pinon, sobre o que tinha acontecido, Antônia decidiu pela adoção e entrou com o processo na Justiça. Após todos os trâmites legais, a criança que antes morava no abrigo, finalmente ganhou um lar. Hoje, Pedro Gama Pinon está com 5 anos e tem uma família para chamar de sua.

“Na adoção, a gente tem que olhar para a criança e sentir o nosso coração, porque eu acho que a gente é mãe de alma. Acho que em outras vidas, eu e o Pedro fomos mãe e filho, porque a gente tem uma afinidade muito grande e isso não tem preço. Hoje eu digo que a adoção foi a melhor coisa da minha vida”, afirma Antônia Gama.

“Aquele foi o momento do nascimento”


Ao contrário de Antônia, Ana Carolina Cruz já tinha dois filhos junto com José Sebastião da Silva, que também tinha uma filha de seu primeiro casamento. Apesar da família já construída, eles não descartaram a adoção.

Ana diz que a ideia partiu dela e que de início, José ficou apreensivo. Depois de um tempo, após conversas sobre o assunto e uma descompromissada visita a uma loja de artigos infantis, a decisão foi tomada.

Seguros do que queriam, Ana e José compartilharam a ideia com seus filhos e familiares, que também apoiaram a iniciativa. Foi então que o casal buscou informações sobre a adoção.

Ana Carolina afirma que a chegada de seu primeiro filho adotivo foi como uma espécie de gravidez, a fazendo sentir igualmente como quando esperava o nascimento de seus filhos biológicos. “A gente chegou a um consenso que nós queríamos um menino recém-nascido. Foi então, que começou aquela ‘gravidez’, todo mundo esperando, e nós começamos a comprar o enxoval”, relembra.

Após um tempo aguardando na fila de adoção, a família foi chamada. Guilherme, hoje com 3 anos, conheceu sua família aos dois meses de vida.
“Eu lembro que foi amor à primeira vista. Meu esposo o colocou no colo e nós começamos a chorar. Eu olhei para a sala e estavam todos chorando, as assistentes sociais, as psicólogas... aquele foi o momento do nascimento”, diz Ana.

A família pensava que o número de filhos ficaria em quatro, mas no ano passado, eles foram novamente procurados pela Justiça. A irmã biológica de Guilherme havia nascido e entraria na lista de crianças aptas à adoção. Sem pensar duas vezes, José e Ana adotaram Vitória Caroline, hoje com 9 meses de idade, e juntaram os dois irmãos.

“Sem nem mesmo conhecer, a gente deu entrada na Justiça pela guarda dela, para também ter o direito de ficar com ela [...]. A gente já tinha uma família pronta, com três filhos. Quando a gente achou que a família estava completa, não estava. Faltava algo mais, faltava a ‘cereja do bolo’, afirma.

“A adoção é uma ligação de amor”


Shahla Lotf de Cerqueira, de 63 anos, queria ser mãe, mas ainda não havia conseguido da forma biológica. Após dois abortos espontâneos e diversos tratamentos, ela percebeu que podia sim ser mãe, só que de outra forma. Juntamente com seu primeiro marido, Jairo Cerqueira, Shahla optou pela adoção e procurou os meios legais para o ato. Sem muita demora, ela foi informada de uma mulher que estava grávida, mas não poderia ficar com a criança.

“Naquela hora eu já adotei. Eu não sabia se ia ser menino ou menina, se ia nascer perfeito ou não, mas a decisão já estava tomada”, conta.

Após nascer, Sarah foi oficialmente adotada por Shahla e Jairo.

Ainda assim, os dois ficaram pensativos quanto sua filha crescer sem irmãos. Foi então que mais uma vez Shahla foi em busca da adoção.

Sofia, a segunda filha adotiva foi primeiramente “apadrinhada” no período natalino. No Amapá, crianças e adolescentes que moram em abrigos são acolhidas por famílias voluntárias durante datas festivas.

Aos três meses de vida, Sofia ainda não estava habilitada para a adoção, mas o casal já a queria como filha e foi à Justiça pela sua guarda. Shahla afirma que foi difícil, mas que após dois anos conseguiu a guarda definitiva.

Atualmente, Sarah está com 20 anos e Sofia com 16, ambas são estudantes, uma cursa fisioterapia e outra está concluindo o ensino médio.

Já com suas filhas na juventude, Shahla afirma que só não adota novamente por conta de sua idade, mas que sente orgulho de ser mãe adotiva. Segundo ela, “a adoção é uma ligação em amor”.

Adoção no Amapá

Entre janeiro e maio deste ano, 25 crianças e adolescentes foram adotadas no estado, segundo dados divulgados nesta semana pelo Tribunal de Justiça do Amapá (Tjap). Em todo o estado, outras 63 crianças esperam por uma família e 219 pessoas são pretendentes na fila de adoção.

Os números “não batem” porque normalmente os pretendentes buscam crianças saudáveis e recém-nascidas ou ainda bem pequenas, mas os menores disponíveis em sua maioria não se encaixam nesse perfil. Ou seja, a adoção de crianças e adolescentes maiores ou com algum tipo de transtorno ou deficiência, é mais rara.

Saad

A Sociedade de Apoio à Adoção (Saad) existe oficialmente desde 2014 e é ao único grupo que oferece apoio aos pais adotivos, esclarecer dúvidas, trocar experiências. Atualmente, são cerca de 130 associados, e aproximadamente 30 componentes trabalhando diretamente nas ações.

Além de dar suporte às famílias, a associação também desenvolve ações sociais e coletivas, visando a divulgação do ato e a quebra de preconceitos.
As pessoas interessadas na adoção podem procurar a Saad, através do telefone (96) 98116-0003 (Ana Carolina Cruz), além dos meios legais, para se informar e esclarecer dúvidas acerca dos procedimentos.

Em relação aos casos de incompatibilidade de perfis, a Saad afirmou que busca mostrar aos pretendentes casos de adoção tardia ou de crianças e adolescentes com alguma deficiência que deram certo, mas que infelizmente, não pode interferir nessa questão, pois é uma escolha pessoal.

Com sua experiência, Ana Carolina Cruz define a palavra “adoção” como “o reconhecimento como filho. Adotar filhos é você assumir a responsabilidade com eles de proteção e amor. Então você precisa adotar seus filhos biológicos também. A adoção em geral é amor e proteção, por isso a gente reconhece todos os tipos de família. A criança precisa dessas duas coisas para crescer bem”.

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