Ocupação artística ajuda barracão de Marabaixo a superar luto e perdas materiais


Por Alice Valena




No Barracão da Tia Gertrudes, um dos pontos mais tradicionais da cultura amapaense, a batida do marabaixo da Favela sofreu um golpe dolorido: o falecimento da matriarca Dona Natalina Costa, em 2017. O episódio foi seguido de um assalto que tomou da comunidade vários elementos utilizados para eternizar a tradição marabaixeira do bairro Santa Rita. 

O que vinha sendo uma sequência de lamentos teve uma reviravolta com a força da negritude local e o ânimo de um grupo formado por 30 artistas de várias searas que decidiram promover a ocupação artística do barracão. O Movimento Cultural Desclassificáveis, como se intitulam, chegou movimentando a casa e usando esse espaço para diversos eventos como os famosos saraus - cabarés temáticos – oficinas, e já planejam a criação do Museu do Marabaixo. 

Os cabarés promovem apresentações da companhia, dança, poesias e, é claro, muita música e melodia. Para Paulo Alfaia, diretor do grupo, é um grande desafio estar no barracão, pois apesar dos diversos tipos de apresentações e intervenções culturais, os Desclassificáveis não tinham trabalhado diretamente com os grupos de Marabaixo e essa permanência está se tornando enriquecedora para eles. 




“Nossa presença aqui faz com que surjam várias ideias e projetos como cuidar do acervo dos barracões, futuramente com o Museu do Marabaixo. Não podemos deixar que instrumentos e roupas se percam no tempo. Temos muitas ideias, mas falta apoio e nada tem custo zero. Contudo, vamos trabalhando e seguindo com nossa arte”, ressalta Paulo. 

Ele pontua que a ocupação no barracão não tem custo, porém eles promovem sustentabilidade no espaço, com vendas de comidas típicas e bebidas. Ele chama de economia criativa, mostrando que a cultura não é só entretenimento, mas, também, uma forma de geração de trabalho e renda, além do cuidado. Todos são responsáveis pelo bem-estar do local. 




Oficinas Formativas 
Além da parte artística, os Desclassificáveis também se ocupam com o lado social das suas intervenções. Várias oficinas, cursos e palestras são oferecidas. A próxima será a oficina de percussão com materiais reciclados Batukelata, ministrada pelo artista Alex de Jesus. A oficina será para crianças e jovens de 9 a 20 anos e a inscrição é um quilo de alimento não perecível, com início previsto para o dia 23 de abril, também no Barracão da Tia Gertrudes, das 19h às 21h. Os alimentos serão doados a uma instituição a ser escolhida. 

 “As crianças e adolescentes precisam se ocupar e se conscientizar com o meio ambiente. Vamos formar não apenas músicos, mas, também, cidadãos, através da musicalidade e teatro”, reforça Alex de Jesus. 

Bunker – Ocupação Artística e Ponto de Guerrilha 

Além de promover a cultura do Marabaixo da Favela, a ocupação artística também mostra as mais diversas atividades culturais de vários artistas, além de muita pesquisa, estudo e rodas de conversa. “Nosso grupo é todo focado nos estudos. Fazemos uma ampla pesquisa antes qualquer evento e qualquer espetáculo”, diz Alfaia. 

Seguindo esse método, está previsto para o dia 26 de abril o Cabaré Gabirú, no bunker. Evento homenageando o artista Gino Flex, já falecido, conhecido pelo seu vasto acervo de vinis. O evento inicia às 19h e envolverá dança, intervenções poéticas, reggae e teatro. 





Os Desclassificáveis 

O grupo surgiu em 2008, da ideia de jovens estudantes de teatro que queriam formar sua própria companhia. Paulo Alfaia, hoje diretor do coletivo, conta que sonhavam em fazer apresentações nos mais diversos lugares e sem definições ou conceitos, por isso o nome. 

Suas apresentações já renderam diversas premiações, e aconteceram muitas vezes em situações inusitadas, seja em porões e ruas, em terrenos baldios ou casas. Nada os impede de ampliar e mostrar sua arte ao público. 

Paulo Alfaia doou seu acervo para pesquisas e sonha com um banco de textos de teatro e uma Biblioteca do Teatro Amapaense: “Estamos catalogando todo acervo e inclusive estamos recebendo doações para o projeto”. 

O diretor exalta que mesmo com toda resistência e sem apoio, eles conseguem movimentar o quadro teatral amapaense. Já apresentaram espetáculos em diversos locais, em várias cidades e isso faz com o grupo fique muito mais fortalecido. E todo trabalho desenvolvido é de forma colaborativa, com os capoeiristas, poetas, outros coletivos de teatro e o Clube do Vinil, por exemplo. Isso reforça o porquê de o grupo estar agora no barracão.
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