Crianças têm Paes na luta contra risco social em Macapá



Por Alice Valena



O barulho daquelas pequenas vozes ecoa do lado de fora de uma casa no bairro Jardim Felicidade II, zona norte de Macapá, mas nada parecido com bagunça ou alguma coisa que possa estar sem comando. As vozes são de várias crianças que acordaram cedo naquele Sábado de Aleluia chuvoso para poderem participar das atividades da Associação Paes - Para Amar e Servir.

A casa, de pé direito alto, como se fosse a junção de duas construções, em três terrenos, com janelas amplas e espaçosas, recebe todos os dias 65 crianças, com aulas de reforço escolar, ensinamentos da bíblia, desenhos, recreação e em breve aulas de flauta. Além disso é servido o lanche, que para muitas crianças pode ser a única refeição do dia.

Quem comanda este projeto é Kátia Paes, pedagoga de 48 anos, que por muito tempo trabalhou em Blumenau (SC) com o voluntariado. De férias em Macapá, depois de muito tempo ausente de sua cidade, se deparou com uma situação que milhares de crianças vivem diariamente: o risco social. Crianças na rua, sem estudar, com famílias desestruturadas, às vezes com mãe ou pai presos ou abandonados vivendo de casa em casa.



Kátia diz que recebeu um sinal divino e decidiu que era a hora dela agir. “O primeiro passo era ter um local adequado e aluguei uma casa, mesmo com desconfiança do dono do imóvel, que achava que eu não iria dar conta de pagar o aluguel. Mas eu arranjei o dinheiro com ajuda de parentes e dei início ao meu projeto", lembra.

O que a princípio seriam pequenas férias se transformaram em 11 anos de muito trabalho no atendimento e acolhimento de crianças e adolescentes, encarados por Kátia como um desafio diário cheio de amor e dedicação. Não só dela, mas também sua família e voluntários, que ajudam essas crianças a terem uma melhor perspectiva de vida na qual, como ela simplesmente diz, tudo tem jeito.


Mesmo com as dificuldades, muitas crianças que já passaram pela casa hoje fazem faculdade, estudam, trabalham, longe do risco e da violência que assola tantos bairros periféricos de Macapá. Algumas meninas que já passaram pela casa hoje ajudam a cuidar das crianças como voluntárias num total de dez, reafirmando outro lema entre eles: o maior sempre cuida do menor.

O ponto de partida é a educação. “Sempre digo que eles podem ampliar suas oportunidades através dos estudos. No futebol, por exemplo, olhamos os cadernos, falamos com os professores, senão, eles não jogam”, explica a responsável pela associação.

“Repassamos também ensinamentos bíblicos, do que é certo e errado, pois a maioria deles não têm isso em casa. Nem disciplina”, pontua Katia, e assim todos os dias ela e a equipe vivenciam o cotidiano de cada criança e suas dificuldades, com tantas e tantas outras histórias para contar.



Entre tantas histórias de vida ela cita uma em especial, da qual nunca esquece: ao pedir que as crianças avisassem os pais do futebol no domingo, dois irmãos chamaram sua atenção pela tristeza, pois o pai estava separado da mãe e eles tinham certeza que ele não iria. Quando chegou o dia, o pai apareceu e a alegria foi grande. “Eles saltaram do último degrau da arquibancada quando avistaram o pai com a chuteira na mão. Aquilo pra mim marcou muito”, emociona-se.

Mas, infelizmente não são apenas historias boas que ela pôde nos contar. Triste, relata um caso de menina que era maltratada pelo padrasto. A menina escreveu numa cartinha as situações que passava. Katia tentou ajudar mas, infelizmente, não obteve sucesso. A mãe não acreditava na filha e um dia viu a menina com 15 anos, grávida do namorado. “Tentou fugir daquilo tudo, mas de outra forma, infelizmente”, lamenta.

Flautas e doações



Por algum tempo, aulas de violão foram constantes no projeto, porém o custo é alto, pois precisam do material, que é o próprio instrumento. Decidiram então pelas aulas de flauta que devem se iniciar no dia 14 abril. Mas isso se conseguirem 60 flautas.

“Já estamos numa campanha para arrecadar os instrumentos. Conseguimos negociar em uma loja o valor de R$12,50 por cada flauta. Temos o valor de algumas, mas ainda falta muito para podermos iniciar as aulas”, diz Kátia.

A pedagoga não cansa de dizer que mesmo com todo o trabalho diário, pois todo mês tem que sair arrecadando dinheiro para pagar o aluguel e as outras despesas, tudo é válido. Além das 65 crianças cadastradas, de vez em quando aparece uma ou outra diferente, que não são furtadas do carinho e atenção do grupo da associação.

A casa está sempre aberta para quem quiser conhecer e fazer doações como alimentos, material escolar, roupas, sapatos e brinquedos. “O máximo que eu puder deixá-los aqui fazendo algo de bom, eles não estarão na rua”, enfatizou Kátia ao fim da nossa conversa.

Quem quiser ajudar a Associação Paes, pode entrar em contato ou visitar as instalações deles.
Contato: (96) 99160-0502
Doações: Banco do Brasil  Agência 0261-5,  C/C 156.000 – X, Katia Ryane Paes Bacelar.

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